Nossos sabores são exóticos?

O que você diria do sabor de um morango? É fácil de reconhecer, afinal é difundido no mundo inteiro. Desde os primeiros anos de vida, a indústria tomou emprestada a fruta para saborizar e aromatizar tudo o que se pode imaginar, desde iogurtes até bonecas(!), tornando universais suas características. Mas, na contramão, um cupuaçu, é tido como algo “exótico”, embora seja ele, e não o morango, a fruta nativa, originária do Brasil. 

Nós de Kiro temos refletido bastante sobre isso: por que ingredientes tipicamente brasileiros ainda são tratados como algo estranho, excêntrico ou extravagante? A primeira coisa que nos vem à cabeça é uma espécie de falta de atenção e de valorização do que é nosso. Não reconhecemos plantas e frutas que estão na nossa calçada, mas pagamos caro por outras que viajam meio planeta para chegar até nós.

A pesquisadora e bartender Néli Pereira, em coluna na revista Vogue, escreveu sobre o tema e chegou a um problema mais grave. Ela diz que, ao tratar o estrangeiro como o cotidiano, em vez de consumirmos o que é nativo, deixamos centenas de milhares de espécies cair em extinção. Nesta linha, também é comum que sejam classificadas como exóticas comidas típicas de uma região específica — sendo talvez o exemplo mais automático a gastronomia amazônica, que é desconhecida por muitos nas outras regiões e, logo, tratada como “exótica”. Agora, pensemos: faz sentido um tacacá ser mais estrangeiro para nós que um boeuf bourguignon? 

Néli continua: “desprezamos conhecimentos ancestrais sobre o uso do solo, o manejo das florestas, descartamos técnicas gastronômicas e artefatos milenares pois são ‘do outro’, do ‘exótico’, ou, em última e pior instância, do ‘selvagem’. E ficamos surdos às narrativas dos povos que estavam aqui antes da invasão portuguesa. E alguns de nós seguem surdos. Antes estivessem também mudos”.

Na contramão do desprezo pelo que é brasileiro, a nutricionista Neide Rigo é uma pesquisadora incansável e curiosa de tudo o que está ao seu redor. Seja nas caminhadas que faz em seu bairro em São Paulo ou nas viagens que faz aos quatro cantos do Brasil, está sempre observando, pesquisando, descobrindo sobre as plantas, frutos, flores, coquinhos, vagens, folhas que estão ao seu redor e que podem ser consumidas. Ela defende que, para ter soberania alimentar, para que consigamos incluir os alimentos nativos na nossa alimentação, é preciso primeiro conhecê-los. Depois, frequentar feiras livres e tentar incorporá-los nas nossas refeições. Isso fará com que os agricultores sejam estimulados a cultivá-los. Assim, o que é nativo se tornará também comum.


Os sabores de Kiro nascem do nosso comprometimento com a biodiversidade brasileira e do nosso desejo de levar ingredientes nativos para todos. Nossa ideia é ampliar o conhecimento sobre nossos próprios frutos bem como nosso repertório gustativo –– afinal, além de brasileiros, esses ingredientes são deliciosos! Aqui, compartilhamos curiosidades sobre alguns desses ingredientes ainda pouco conhecidos por parte dos brasileiros:
 
Confira todos os benefícios do cupuaçu, fruta da mesma família do cacau -  Estadão
Cupuaçu: nativo da região amazônica, é primo direto do cacau e tem polpa cremosa, levemente ácida, perfumada e bem delicada. Ela se preza a diversos usos como sucos, sorvetes e sobremesas diversas. Nossa polpa é oriunda de agricultura familiar.
 
 
Conheça o cumaru, a baunilha amazônica - Gastronomia Carioca
Cumaru: é uma árvore amazônica cujas sementes são conhecidas como a baunilha brasileira, uma verdadeira joia nacional! As que usamos –– e que são orgânicas –– caem naturalmente das árvores e são colhidas por comunidades ribeirinhas ou indígenas e então são comercializadas pela Jucarepa.
 
 
Pimenta Baniwa: das mãos das mulheres indígenas do Amazonas para o comércio  varejista de São Paulo - Revista Cenarium
Pimenta Jiquitaia: é um mix de pimentas torradas, moídas e misturadas com sal e feita artesanalmente por mulheres da do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. É utilizada há séculos pelo povo Baniwa como proteção espiritual e como purificador de alimentos. A pimenta usada no Kiro maçã é orgânica e vêm da OIBI (Organização Indígena da Bacia do Içana), que promove produtos da cultura dos Baniwa.


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